OLAVO CARDOSO


Sabecumé ensinar uma criança a andar, estar sempre ao seu lado, amparando, protegendo e estimulando sempre?

Eu tive alguém que me fez isso quando comecei na minha profissão. Eu tive um Mestre.

Não fosse Olavo Cardoso, eu teria desistido, jogado a toalha e talvez estivesse hoje engrossando a lista dos guerrilheiros que a ditadura  matou.  Afinal, desde os 14 anos principiei, nas lavouras da Escola Agrotécnica de Campos, as táticas de guerrilha ministradas por cubanos e promovidas por um  certo Edvaldo Francisco Fidel, medroso, que pulou fora com o 1º de abril.

Olavo me deu o primeiro microfone e vibrava com as reportagens que eu fazia, esgueirando entres tabuleiros no primeiro trabalho em  defesa do consumidor.  Ninguém cogitava desse Código que hoje virou realidade. Éramos, eu e Olavo  Cardoso, dois loucos, na primavera de 1970, orientando os consumidores,  indicando-lhes promoções, produtos de qualidade e criando uma mentalidade de respeito entre quem comprava e quem vendia.

Demos dignidade  a comerciantes discriminados e a seus compradores  explorados, chamando-os de clientes e consumidores. Hoje, olhando para trás, tenho satisfação de ter contribuído com aquele processo de valorização da criatura humana. Recusamos os mais estranhos mimos, leitões, caranguejos, samburás de frutas regionais e (pasmem!) até virgens.

Quantos batizados nos ofertaram, quantos Olavos e Paulo não receberam esses nomes  em nossa homenagem…

Desapareceu ontem  da vida física meu companheiro daqueles tempos, quando fui a unha de sua carne, seu o filho e ele meu pai, o protetor afável e compreensível. Olavo nunca deu um grito na vida, nem de gol.

Mas Olavo Cardoso, a quem não via havia tempo e  planejava fazer-lhe uma  visita surpresa, não morreu. Os espíritos não morrem.

Conforta-me saber que foi imediatamente arrebatado, amparado e amparado pelas Forças Superiores e reconduzido ao seu mundo de origem.
Findou-se o corpo físico de que se serviu para estar na Terra. Mas o espírito, a partícula da Força Criadora, o Todo que regula o universo (alguns chamam de  Deus, Buda, Maomé, Alá, Tupã,  etc.), não morre. Segue sua trajetória evolutiva.

A Olavo Cardoso devemos a comunicação com responsabilidade, o empenho em  descobrir e transmitir apenas noticias fraternais. Olavo fazia o trabalho limpo em meio a tanta gente sem responsabilidade e consciência do dever profissional. Reencarnou  com essa missão e a cumpriu até seus últimos dias, saindo do  microfone para a sepultura.

E lá se foi Olavo, filho de Dona Zilda e seu Chico Paturi do “Disco Voador”, da Coroa Boêmia, depois dos irmãos Paulo, Cacau e Lauro. Restou Roberto, igualmente meu irmão e cúmplice nas estripulias e inconseqüências próprias da  madureza. Ambos herdamos o legado de Olavo, lá no comecinho.

Olavo era um espírito superior entre nós, agüentando com invejável resignação a inutilidade dos seus rins, amargando diálises constantes, mas tendo sempre uma palavra de alegria e paz para oferecer a milhares ouvintes.

 Não quero chorar, não mais. Resta-nos a todos o consolo de ter tido a primazia de viver no tempo de Olavo Cardoso, pois o mundo sem ele será muito mais difícil e complicado.

Até mais, meu mestre.

Que a Luz se faça sempre em seu espírito. Cumpriu-se uma lei natural que rege o  universo e que a ela tudo está sujeito. Com sua morte física guardemos sua derradeira lição: praticar o bem, apenas o bem.

 Paulo “Cardoso” Freitas

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