Desencarcou o maior show-man do Brasil, meu irmão camarada Dicró, apelido resultando das iniciais  do nome Carlos Roberto de Oliveira, antecedido da proposição “de”, nos selos dos discos de vinil onde estava grafado: composição –  De CRO. Com a pronuncia carioca Di CRO até virar Dicró.

Dicro

Em sua Praia de Ramos, Dicro reinava com alegria e bom humor

Éramos amigos e solidários até na doenças, o diabetes. Ele quis fazer de mim seu empresário, mas eu não dava para o negócio

– É pra te ajudar, tu leva 20% no mole e eu não vou ser roubado por Filho da (piiiiii) nenhum.

Não sei pastar, respondi, andar por ai de pasta na mão. E não falamos mais disso. Ficou mesmo com dona Madalena (ou terá sido Iracema), de que viria a se separar mais tarde.

Este é um dia triste para mim e meus filhos, especialmente David Tadeu, que me acordou  para lamentar:

– Dicró morreu e eu nunca assisti a um show dele – fazendo idéia do que perdeu.

Perdemos. Nascido e criado na Favela da Jacutinga, na Baixada Fluminense, Dicró foi tudo na vida, autodidata até virar um artista completo.

Dicro seria contratado para o Zorra Total. Demoraram muito.,

– Desce ai, cambada, vociferou para seus músicos e mulatas no dia que ia para um show no interior e deu uma passadinha lá em cada. Tem uma feijoada doida aqui.

Nem tava pronta e atacaram a feijoada incompleta, não sobrou nada. Deram uma de mosquito, comeram e voaram para a estrada. Dicro sempre ameaçava voltar, eu mudei e ele não concretizou a ameaça à dona Gigi, sua vítima.

Nessa hora de dor, vem à lembrança as alegrias que me deu. Era um magnífico terrorista cultural, enfrentando o famigerado Ecad e as multinacionais da música.

Em seus shows, cantava o hino de todos os clubes. Quando chegava a hora do Flamengo, fazia de conta que nem existia, que já tinha cantado, enquanto a platéia clamava “Mengão, Mengão”. Dicró estufava seu coração vascaíno:

– Isso não é time, isso eu não canto – até ser interrompido por um dos músicos berrando “uma vez Flamengo…”

Ameaçava demitir, mandava parar e ninguém obedecia. Até os adversário do Mengão se esgoelavam “Flamengo sempre eu hei de ser…”, mais parecendo desfile do Monobloco, até ele botar ordem na casa.

Não perdia o pique nem o carisma e ainda me botava no fogo

– Meu amigo Paulo Freitas me revelou que essa cidade é uma maravilha, pois ele garante aqui não tem corno.

O público irrompia em desacordo, apontando uns aos outros  como galhudo ou gritando o nome do corno mais afamado. Depois, ainda fazendo referencia a mim, dizia: “já que tem tanto corno assim, Freitas, qual é?” E ele mesmo se encarregava de inventar outra.

– Eu fiz confusão, ele disse que aqui não tem bicha, sapatão e puta, então, nem pensar..

O mundo vinha abaixo com o berreiro. Nossa, parecia estar em Gomorra. O povo parecia se orgulhar da má-fama

Dominava a platéia, que, subjugada, fazia tudo o que ele queria.

A última que soube dele foi que teve que arrancar uma parte da perna ou do pé por conta do diabetes. Mas não deixava os shows nem a malvada da cachaça.

Pagou caro e nos privou de sua alegria.

Fosse eu materialista, diria que tem dedo do Chico Anisyo nessa desencarnação. Chico foi um dos poucos a reconhecer que Dicró era único e disparado o melhor show-man do planeta. E Dicró o amava muito. A morte de Chico afetou demais Dicró.

Estou ficando mais órfão a cada dia.

Que as forças superiores deem esclarecimento ao nosso espírito, que ele tenha consciência de seus erros, a fim de evita-los e nos fortalecer para praticar o bem. Assim, irradiamos ao Grande Foco, Vida do Universo, para que a luz se faça em nosso espírito. Ao Astral Superior e ao Dicró.

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