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 Gostei de ser enganado!

hemodialise

Vai fechar a Clínica de Diálise do Ingá, a CDI da Rua Tiradentes, única da Zona Sul de Niterói. Trabalhava apenas com pacientes de planos de saúde, péssimos pagadores. Era tida ”cinco estrelas”, oferecendo serviço diferenciado. Seus pacientes estão sendo transferidos para o CDR, na entrada da Favela do Sabão, na Rua São Lourenço, de péssima reputação entre os pacientes da CDI.  “É o suprassumo do lixo, pior que o inferno. Vocês teor pouco tempo de vida lá’, apregoavam todos sobre CDR da favela.

Fui um dos primeiros a serem transferidos (de quatro em quatro), enquanto outros companheiros temiam por sua vez, entrando em depressão ou tendo outras formas de chiliques. Fui feito boi para o abate ou Tiradentes para a forca. E assim preparado para o pior me decepcionei alegremente. O 61 (Venda da Cruz-Icaraí) deixou-me quase na porta.

Tudo mentira, fruto do preconceito contra o lugar em que se instalou. Mais que isso, complexo de superioridade dos médicos e técnicos da CDI sobre seus colegas da clínica na favela.

Eu era infeliz, mas não sabia. Nos últimos dias até dava para sentir: não havia prontidão da enfermagem e médicos quando acusava uma intercorrência, tomei banho de ácido que me afetou a córnea e até a maquininha de café parrou de funcionar, revelando aspecto de “fim de feira”.

Na CDR e sua favela, a primeira surpresa: estacionamento amplo, farto, que não lota nunca. Na CDI, havia apenas duas vagas, na rua e olhe lá!  A turma que tem carro vai adorar.

Na entrada, um tapete vermelho (imaginário) prenunciava que eu teria uma grande e bela decepção ali. Esperavam-me a administradora da casa, no papel de recepcionista de luxo, e o diretor clínico, que me fez lembrar minha eterna amiga e hoje santa Madre Tereza de Calcutá.

O lanche é um sanduiche natural e uma garrafinha de iogurte Danone. Não gostei do atum, mas comi assim mesmo, deu saudade da caixinha de suco e pão com manteiga da CDI, servidos com incrível má vontade por um faxineiro, que se julgava deus do lugar, peixinho da enfermeira-chefe.

O melhor estava por vir: a diálise propriamente dita, coisa que não desejo para ninguém. Tenho uma enfermeira pra chamar de minha. Ela e um anjo até no nome: Ângela, com oito anos de casa. Muita candura e presteza.  A diferença é muita. Não fico mofando na recepção para entrar na sala de diálise. Não dependo do faxineiro para me pesar com má vontade (tudo que aquele semideus faz é com extrema ruindade). Eu me peso e informo qual é o peso e excesso.

Está certo que não há poltronas eletrônicas, mas cadeiras tipo “do papai”, que se dobram e um nojento banquinho de PVC pra se colocar os pés. São baixinhas, acabando com a coluna das enfermeiras (eu chamo técnico de enfermeira também, não vejo diferença).

Minha Anja  me puncionou de modo a fazer esquecer Maryelle e Cintia, minhas doces enfermeiras na CDI. Ângela é um poço de candura e competência. Já transcorreu uma semana de diálise feliz.

E minha nova médica e xará, Paula. Linda, sem complexo, sempre presente e preocupada, extremamente desvelada de tão aplicada à profissão.

Eu me pergunto: onde está o prometido inferno da CDR, alardeado na CDI? Imagino que infernal seria para eles, funcionários da CDI, que se fossem aproveitados na clínica da favela teriam que se enquadrar, respeitar os pacientes, trata-los com urbanidade, o que constituiria tortura para eles. Não sabem ser assim.

Na a CDR, o paciente não é responsabilizado quando sua máquina apita (e não apita sem parar aleia a todos). Muito menos quando sucede uma intercorrência ou “vaza” na hora de ser devolvido. No CDR não tem a cultura de culpabilização do paciente por tudo que lhe sucede.

Porque, e resto, a favelada CDR é um paraíso para mim. Tem o inconveniente quanto à saída para quem depende de ônibus, nada que uma boa caminhada até a Marques de Paraná não resolva. No final das contas, tudo compensa.

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Desencarcou o maior show-man do Brasil, meu irmão camarada Dicró, apelido resultando das iniciais  do nome Carlos Roberto de Oliveira, antecedido da proposição “de”, nos selos dos discos de vinil onde estava grafado: composição –  De CRO. Com a pronuncia carioca Di CRO até virar Dicró.

Dicro

Em sua Praia de Ramos, Dicro reinava com alegria e bom humor

Éramos amigos e solidários até na doenças, o diabetes. Ele quis fazer de mim seu empresário, mas eu não dava para o negócio

– É pra te ajudar, tu leva 20% no mole e eu não vou ser roubado por Filho da (piiiiii) nenhum.

Não sei pastar, respondi, andar por ai de pasta na mão. E não falamos mais disso. Ficou mesmo com dona Madalena (ou terá sido Iracema), de que viria a se separar mais tarde.

Este é um dia triste para mim e meus filhos, especialmente David Tadeu, que me acordou  para lamentar:

– Dicró morreu e eu nunca assisti a um show dele – fazendo idéia do que perdeu.

Perdemos. Nascido e criado na Favela da Jacutinga, na Baixada Fluminense, Dicró foi tudo na vida, autodidata até virar um artista completo.

Dicro seria contratado para o Zorra Total. Demoraram muito.,

– Desce ai, cambada, vociferou para seus músicos e mulatas no dia que ia para um show no interior e deu uma passadinha lá em cada. Tem uma feijoada doida aqui.

Nem tava pronta e atacaram a feijoada incompleta, não sobrou nada. Deram uma de mosquito, comeram e voaram para a estrada. Dicro sempre ameaçava voltar, eu mudei e ele não concretizou a ameaça à dona Gigi, sua vítima.

Nessa hora de dor, vem à lembrança as alegrias que me deu. Era um magnífico terrorista cultural, enfrentando o famigerado Ecad e as multinacionais da música.

Em seus shows, cantava o hino de todos os clubes. Quando chegava a hora do Flamengo, fazia de conta que nem existia, que já tinha cantado, enquanto a platéia clamava “Mengão, Mengão”. Dicró estufava seu coração vascaíno:

– Isso não é time, isso eu não canto – até ser interrompido por um dos músicos berrando “uma vez Flamengo…”

Ameaçava demitir, mandava parar e ninguém obedecia. Até os adversário do Mengão se esgoelavam “Flamengo sempre eu hei de ser…”, mais parecendo desfile do Monobloco, até ele botar ordem na casa.

Não perdia o pique nem o carisma e ainda me botava no fogo

– Meu amigo Paulo Freitas me revelou que essa cidade é uma maravilha, pois ele garante aqui não tem corno.

O público irrompia em desacordo, apontando uns aos outros  como galhudo ou gritando o nome do corno mais afamado. Depois, ainda fazendo referencia a mim, dizia: “já que tem tanto corno assim, Freitas, qual é?” E ele mesmo se encarregava de inventar outra.

– Eu fiz confusão, ele disse que aqui não tem bicha, sapatão e puta, então, nem pensar..

O mundo vinha abaixo com o berreiro. Nossa, parecia estar em Gomorra. O povo parecia se orgulhar da má-fama

Dominava a platéia, que, subjugada, fazia tudo o que ele queria.

A última que soube dele foi que teve que arrancar uma parte da perna ou do pé por conta do diabetes. Mas não deixava os shows nem a malvada da cachaça.

Pagou caro e nos privou de sua alegria.

Fosse eu materialista, diria que tem dedo do Chico Anisyo nessa desencarnação. Chico foi um dos poucos a reconhecer que Dicró era único e disparado o melhor show-man do planeta. E Dicró o amava muito. A morte de Chico afetou demais Dicró.

Estou ficando mais órfão a cada dia.

Que as forças superiores deem esclarecimento ao nosso espírito, que ele tenha consciência de seus erros, a fim de evita-los e nos fortalecer para praticar o bem. Assim, irradiamos ao Grande Foco, Vida do Universo, para que a luz se faça em nosso espírito. Ao Astral Superior e ao Dicró.